A obra será encenada nos dias 29 e 30, às 20h, no Teatro Margarida Schivasappa. Com texto do dramaturgo romeno Matei Visniec, a peça revela contradições e dilemas contemporâneos. Espetáculo “Com os bolsos cheios de pão”, da Cia Cisco (SP)
Keiny Andrade
Somos capazes de agir diante de atos injustos, crueis? “Com os bolsos cheios de pão”, peça inédita em Belém, mostra dois homens indignados, diante de um poço, onde um cachorro agoniza após ser jogado por desconhecidos. Eles argumentam, discordam, mas não tomam nenhuma atitude efetiva para ajudar o animal. O espetáculo, da Cia.Cisco (SP), faz duas sessões com entrada franca, nos dias 29 e 30, às 20h, no Teatro Margarida Schivasappa. Haverá ainda oficina e mesa de debate que estão com inscrições abertas e gratuitas.
Alguns dos maiores dilemas da sociedade contemporânea estão presentes na obra, criada pelo dramaturgo e jornalista romeno Matei Visniec. “É um texto bastante atual por levantar muitas provocações. Até que ponto não ficamos inertes diante dos dramas dos outros? Será que apenas reagir passiva ou remotamente nas redes sociais é suficiente para os problemas que clamam por nossa intervenção? Quantos cães deixamos cair no fundo do poço?”, indaga o diretor Vinicius Torres Machado.
Naturalizado francês, Visniec escreveu o texto em 1980, quando seu país vivia sob um brutal governo autoritário. A peça nasceu de uma história real, quando o autor, apressado a caminho do trabalho, passou por um poço abandonado e ficou chocado ao descobrir um cachorro vivo. O animal latiu pedindo ajuda, mas Visniec só teve tempo de ver que era um cão branco. “Continuei no caminho para a escola, mas senti uma culpa terrível o dia inteiro”, escreveu o autor. À noite, soube que o cachorro havia sido salvo.
“De repente, tive a revelação do escopo metafórico dessa peça: esse cachorro, era eu, esse cachorro, era todo o povo romeno trancado na ditadura a pedir inutilmente ajuda”.
No enredo, o homem de bengala, interpretado pelo ator paraense Edgar Castro, e o homem de chapéu, vivido por Donizeti Mazonas, travam uma longa conversa sobre o drama vivido pelo animal, mas não demorará para se desentenderem até entre si. Em cena, em cima do poço, os dois homens, apesar da indignação que manifestam, não socorrem o animal, emaranhados que estão em embates verbais e disputas personalistas.
“O diálogo em torno do poço transforma-se em fábula política, social, humana. As falas circundam a ação da mesma forma como os dois personagens circundam o poço. Estes criam diversas possibilidades de ação que constantemente se desfazem sob a pressão da argumentação”, revela Machado.
Da compaixão à culpa por não fazerem nada, os dois personagens só conseguem lançar pedaços de pães para o pobre animal. É como se as migalhas que lançam no fundo do poço pudessem arrefecer a não-atitude deles.
Para Edgar Castro, a obra nos remete ao atual cenário político e social brasileiro. “Ao ler a peça, buscando iluminar aspectos da nossa realidade encontramos no embate verbal entre as duas personagens da obra uma possibilidade de refletir sobre coisas que estamos vivendo, como um excesso de opinião no diálogo público e uma dificuldade de escuta do outro, que resulta em uma ausência de ações efetivas sobre problemas sociais. É como se a indignação que move as opiniões se dissipasse na hora de agir. Essa foi a via que adotamos para acessar esse texto teatral que admiramos tanto”.
Espetáculo “Com os bolsos cheios de pão”, da Cia Cisco (SP)
Keiny Andrade
Oficina e mesa pública
Além dos dois dias de espetáculos, a Cia.Cisco promove a oficina “A escuta do corpo”, no dia 30, de 9 às 13h, e, logo em seguida, às 17h, a mesa pública “O trabalho do intérprete teatral como ofício”, ambos no Teatro Margarida Schivasappa.
Com um enfoque maior no corpo e sua relação com o espaço, a oficina ativa o estado cênico através do encontro e no jogo com o outro, disponibilizando o corpo para a improvisação e a criação da cena fundamentada no trabalho do ator. A mesa pública propõe uma reflexão a respeito da formação do intérprete teatral sob a perspectiva do ofício.
Toda a programação integra o “Escambo: Rede Parente”, projeto contemplado pela Bolsa Funarte de Teatro Myriam Muniz. Depois da capital paraense, o projeto vai circular por espaços culturais de Manaus (AM), Campo Grande (MS) e São Paulo (SP), reunindo coletivos de teatro na promoção de mais de 50 atividades.
Serviço:
Espetáculo “Com os bolsos cheios de pão”: 29 e 30 de março, às 20h, com distribuição de ingresso a partir de 14h;
Oficina “A escuta do corpo”: dia 30 de março, das 9h às 13h, inscrições abertas:
Mesa Pública “O trabalho do intérprete teatral como ofício”: 30 de março, às 17h, inscrições abertas:
Programação gratuita no Teatro Margarida Schivasappa (na Fundação Cultural do Pará – FCP, Av. Gentil Bitencourt, 650).
g1.globo.com

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